terça-feira, junho 27, 2017

Abraça-me

sou mais de abraços do que de beijinhos, (beijos já é outra conversa). sempre que posso abraço-me às pessoas de que gosto muito, e até dou uns abracinhos menos chegados às que gosto assim-assim.

sendo homem, os abraços que recebo são quase sempre frontais, (sempre quando é de outros homens!) e a maior parte das vezes quando é de mulher. a mulher às vezes também me dá um abraço por trás que na minha opinião é um abraço muito subvalorizado. se calhar é por receber esse género especifico poucas vezes, até porque para uma mulher não é fácil abraçar-me por trás, dada a largura de ombros e compleição geral do resto dos acessórios, que gosto tanto dele.

a sensação de termos agarrados a nós a pessoa que amamos é ao mesmo tempo excitante e reconfortante. saber que ao alcance de uma viragem temos a mulher mais quente do planeta e sentir o calor dela a envolver-nos bate qualquer remédio mais ou menos milagroso que nos queira curar as maleitas da vida.

já nem falo do prazer que retiro de a abraçar em modo adão e eva embrulhando-a como se estivesse dentro de mim num vínculo perfeito de amor e alma.

segunda-feira, junho 26, 2017

Sim

quando cheguei ao carro, onde tinha o telemóvel, escrevi uma mensagem: “amo-te”. “amo-te mais”, recebi. liguei-lhe, disse que queria estar com ela, ela disse-me que sim, marcamos para dali a bocado. cheguei a casa, menti e disse que ia comemorar com os amigos a prova. não acreditou mas disse que estava bem. ela disse em casa que ia ter com umas amigas, ele não acreditou, mas disse que estava bem.

quando chegou à minha beira estivemos não sei quanto tempo só abraçados sem dizer nada. acho que choramos um bocado porque a mão dela sabia a sal quando me tocava nos lábios, mas também houve risos. quando nos beijamos deixou de haver dor ou som ou duas pessoas, só uma.

Sim.

Não

Quando o ferry-boat chegou ao local onde nos lançaríamos ao rio, já era quase mar, via-se mesmo a praia nas costas do nosso destino. Nunca fui um tipo muito temeroso, e agora desde que te perdi, a iminência do perigo tornou-se quase uma necessidade, como se procurasse no meu fim o termo da tristeza que tomou conta do meu ser. Mesmo assim senti um friozinho na espinha quando percebi que o destino do outro lado da água não se enxergava a olho nu.

Como sempre depois de entrar na água que estava gelada, não pensei mais no assunto e até montar na bicicleta a satisfação que encontro sempre no esforço físico já tinha conquistado os meus pensamentos. Desta vez a parte do ciclismo seria anormalmente dura e não tardei a sentir no corpo o preço da subida acrescido de ter sido uns dos primeiros a sair da água tal fora a velocidade empregue na natação. Quando o coração já batia no limite do aceitável e as primeiras lutas mentais começaram, houve um momento que, tática velha, olhei a paisagem da serra, para esquecer a dor e enganar cabeça, e do nada senti, senti-te, senti que pensavas em mim, e o que era um momento de bravura corpórea transformou-se numa sensação acre-doce que me invadiu e fez sorrir.

Já na meta, conversava com os amigos sobre as agruras da prova, quando senti necessidade de olhar quase para as minhas costas, e perplexo, porque tinha ido sozinho e sozinho regressaria a casa, não percebendo o que procurava, vi-te. Pela posição e rigidez da forma, já devias estar há algum tempo a olhar para mim. Como dois autómatos dirigimo-nos ao ponto onde poderíamos estar mais próximos dada a barreira que nos separava:

** Já andava à tua procura há horas, (disse-me, a prova tinha durado quatro)
* Eu sabia, quer dizer acho que sabia…
**Aproveitei (continuou, sem me ouvir) que tinha algum tempo sozinha e queria-te dizer…
* A… não digas…
** Digo, digo. Sinto muito a tua, a tua não, a nossa falta… E tu andas tão estranho. Diz-me, preciso de ouvir, o que sentes, o que ainda sentes por mim, ainda somos amigos não somos?
* A, eu gosto, eu… gosto muito de ti. Não há dia… somos, seremos sempre amigos.
** (afagou os cabelos ao mesmo tempo que escondia as lágrimas) Adoro-te… liga-me, tenho de ir. 

Deu-me um beijo na face, eu tentei dar-lhe a mão enquanto mordia o lábio para não chorar, e ela aproveitou a minha indecisão para fugir para o meio da multidão.

Não.


sexta-feira, junho 23, 2017

Karma ou dia zero

Nas últimas semanas tenho acordado estremunhado e com uma sensação de aperto no peito acompanhada quase sempre de um suspiro profundo. É quase como se tivesse despertado depois de ter chorado convulsivamente.

Hoje mal me levantei senti uma pequena inquietude. Que ao longo do dia se transformou num pequeno ardor e me impediu de comer decentemente (e me fez olhar o telemóvel vezes sem conta). Também já perdi a conta às vezes que suspirei sem motivo aparente.

Antes de chegar a ansiedade tomou conta de mim. Tornei a irritar-me comigo próprio por estar assim como um miúdo que vai fazer um exame.

Entrei. Não te tinha dito nada sobre a minha nova tentativa de te apagar cá dentro, mas tu sabes sempre. Sabemos. Nem precisamos de olhar um para um outro, nem precisamos sequer de estar no mesmo lugar. E também não precisei que mo dissesses para saber que concordas com a minha (in)decisão. Mal os nossos olhares se cruzaram, enquanto as nossas bocas diziam qualquer coisa inaudível parecida com um cumprimento, cá dentro senti as garras do desespero do condenado a cravaram-se forte. Fiz o sorriso que pude enquanto entabulei conversa com outra pessoa qualquer, até que foste obrigada a explicar-me uma piada que não tinha percebido e a fraude que foi a tua gargalhada confirmou que estavas como eu, a lutar por dentro. Afastei-me em passos suaves embora me apetecesse correr não só porque as pernas me ardiam.

Só nos tornamos a cruzar já bastante mais tarde, de automóvel, mesmo que para isso tivesse dado uma data de voltas ao quarteirão para só voltar a entrar quando já tivesses saído. Mesmo assim levantamos os braços como quem diz adeus e juro, quase rezei para que o meu estivesse partido, enquanto as nossas faces espelho uma da outra, se assemelhavam a almas que já cá não estão.

Adeus. (?)

domingo, junho 18, 2017

Infiel

Estou como quero – bem, quase como quero, quase. Mais uma vez, de uma forma espontânea e impercetível ao mais atento fui plasmando o mundo à minha volta de forma a ficar como pretendia. Quase.
A minha mulher e eu estamos naquele ponto em que nos damos tão bem que a qualquer momento descamba tudo. Ela já percebeu que os sentimentos mudaram, sabe perfeitamente quem é a outra e tenho a certeza de que não tem dúvidas nenhumas de que já não há retorno. Somos ao mesmo tempo demasiado civilizados e vá, comodamente sensatos, para não deixar de saber que destruir tudo (o que temos em conjunto) pode não ser o melhor caminho, quem sabe nos habituamos à ideia de que aquilo que (ainda) nos liga, sendo de uma intensidade diferente da paixão que nos uniu não deixa de ser um sentimento simpático e além disso nenhum de nós é novo.


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“Parabéns pela capacidade de amar sozinho.”

Esta frase dita em jeito de crítica num comentário no blog nunca mais me saiu da cabeça. Fez-me refletir (mais uma vez, ou melhor mais uma data de vezes) sobre a atitude a tomar em relação a esta minha paixão, a este sentimento completamente fora de tempo, quiçá fora-da-lei.

Pode não parecer, mas sou um tipo extremamente cerebral: as frases “és insensível” ou “não conheço ninguém tão frio como tu” fazem parte dos elogios ditos por quem me conhece bem e que gosta de mim. Sobretudo no que toca a sentimentos sou extremamente discreto e sou capaz de ser pragmático perante as mais difíceis provas a que a vida nos vai submetendo independentemente do seu nível trágico ou nefasto. A ninguém, absolutamente ninguém contei esta paixão que me corrói e dá vida ao mesmo tempo. E ninguém, além da minha mulher, suspeita sequer, nem mesmo os meus amigos mais chegados que se contam pelos dedos de uma mão. Nem mesmo o meu melhor amigo e único confidente.

A verdade é que as mil vezes que conclui que isto era uma causa perdida e que meti na cabeça que tinha que fazer tudo ao meu alcance para a esquecer, mil e uma outras vezes alguma coisa me fez retroceder e tornar a acreditar que ela também gosta de mim.

Porque é disso que se trata. Se ela gosta ou não de mim.

Tecnicamente falando, as confusões que rebentariam se eu e ela nos decidíssemos juntar, tornariam as nossas vidas tão caóticas que perante essa possibilidade era capaz de lhe pedir que ficássemos nas mesma (mentira, ia a correr partir o meu mundo ao meio). Eu sei disso, sei bem disso, até porque não me falta experiência, já vou na minha terceira mulher oficial. E desta vez seria pior, há mais vetores envolvidos e ambos temos vidas complexas, profissional e materialmente falando. Para já não falar dos filhos. E ela também sabe disso, é uma mulher de sucesso que subiu a pulso e construiu uma vida tal como eu, quase perfeita, daquelas de revista de sociedade. A grande maior parte das pessoas ficaria como está; a grande maior parte das pessoas acharia que isto é um delírio meu, eventualmente dela, que pode e deve ser combatido e esquecido, uma coisa de adolescente que não tem cabimento no mundo de quem é responsável e adulto.

Mas o que eu quero saber, e basta-me para ser feliz é se ela também gosta de mim. Com a mesma intensidade. E não consigo apagar esse pensamento da minha cabeça. E não consigo concluir, definitivamente, que não gosta. Chego mesmo a sentir-me tentado a provocar algo que a faça zangar-se comigo para ter um motivo para a esquecer. E testo, e torno a testar, trato-a com indiferença, estou dias sem me cruzar com ela e sem lhe falar, quando antigamente falávamos todos os dias dada a nossa ligação profissional, sou divertido e charmoso com as outras colegas e telegráfico e artificial com ela. 

Mas depois, estamos uns dias sem nos ver por causa das nossas viagens e quando nos reencontramos ficamos ali horas a por a conversa em dia, depois num momento de fraqueza confesso-lhe que tenho saudades de ouvir a sua voz e ela liga-me de propósito para falarmos de nada, depois juro-lhe que me vou conter nos piropos e elogios e ela diz que não se importa e chama-me tonto porque também se acha tonta.

Sempre que penso, e torno a pensar, acho que este mundo não tem espaço para nós dois, mas pelo menos queria ter a certeza que ela gosta de mim. Só isso.


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Tristeza anónima.

Uma palavra final para a tragédia que assola o país. Nenhuma palavra ou pensamento pode apaziguar o que aconteceu com tantas vidas. Os meus sentidos pêsames.

sexta-feira, maio 26, 2017

Só para que saibas

Ontem, mesmo depois de uma noite de regalório, quando cheguei a casa ligeiramente entornado e me atirei para cima dos lençóis o último pensamento antes do click do Morfeu, foste tu.

Hoje quando acordei estremunhado e iniciei a luta contra a vontade de voltar à piscina, na minha cabeça a tua imagem reinou.

Por isso, quando à bocado franziste o sobrolho quase irritada porque passei por ti e te pareci tão indiferente como tu és impassível desde que decidiste jejuar do meu coração, fica a saber que não te adoro menos do que ontem.

Fica a saber que continuo a beber do teu sorriso, às vezes tudo o que preciso para me sentir feliz é ouvir a tua voz, muitas vezes quando me perguntam o que estou a pensar e respondo “em nada”, o “nada” és tu.

segunda-feira, maio 22, 2017

Same old me (I was missing you)

*** Olá! Sabes quem sou? Da prova de domingo?
* Claro! Achas que não reparava?
*** Ai é? Porquê?
* Então? A prova foi ontem! Além disso tu não passas despercebida…
*** Uiiii, coro já?
* Coro? É verdade! Às tantas achas que és feia queres ver – estou só a constatar, não precisas de casar comigo só por causa de um elogio!
*** Ahahahahaha
* Já estás melhor? Ontem estavas a sofrer um bocado…
*** Toda dorida, mas melhor… ontem desapareceste…
* Apareceu a minha prima, e estava lá com um grupo de amigos… ainda te vi umas 2 ou 3 vezes mas também não estavas sozinha… Ainda almocei lá e depois já não te vi mais à tarde…
*** Sim, fui cedo, esperei só que todos acabassem do meu grupo e fomos embora.
* E agora??
*** E agora o quê?
* Quando é que nos encontramos outra vez?

terça-feira, maio 16, 2017

Livre

Acordei eram cinco e pouco da manhã. É sempre assim, pensei, tinha posto o despertador para as seis e trinta, por segurança, pois acordo todos os dias por essa hora sem despertador nenhum. Ainda fiquei uns minutos na cama a pensar se valeria a pena tentar adormecer de novo, esperava-me um dia de esforço físico considerável e tinha-me deitado umas quatro horas antes, mas decidi, como sempre, que nem ia adormecer nem me sentia cansado ou com sono – assim sempre teria um tempo extra para rever o equipamento e tomar o pequeno almoço mais calmamente. Assim fiz, devagar fui tomando conta do dia que ainda não tinha nascido, vesti-me o mais tranquilamente que consegui e depois de ir à garagem colocar as tralhas para a prova, no automóvel, voltei à cozinha para preparar e tomar o pequeno almoço.

Deviam ser umas seis e qualquer coisa quando me sentei na sala a tomar o café enquanto visualizava o dia que iria começar dali a pouco quando comecei a ouvir um barulho estranho que parecia vir da zona do recuperador instalado no fogão de sala. Primeiro não liguei muito pensando que seria no exterior da casa, mas depois com a repetição e aumento do ruído comecei a olhar na direção do fogão, mas a semi-obscuridade que ainda pairava na sala impedia-me de ver com clareza – acabei por me aproximar do dito fogão e foi quando percebi que dentro do recuperador estava um pequeno pássaro que em pânico, aumentado por ver aproximar, embatia desesperadamente no vidro e escondia-se ao mesmo tempo em movimentos rápidos e descontrolados. Rapidamente enxotei os gatos que, entretanto, se empoleiravam na beira do fogão e abri blackouts e as portas de correr da sala deixando entrar a luz e avisando o pequeno animal onde seria a saída. Assim que abri a porta do recuperador o passarinho esvoaçou para fora da sala e da casa como tivesse acabado de nascer e fosse este o seu primeiro voo.

Às seis horas e trinta já rolava em direção ao local da prova. Cheguei bastante cedo, e calmamente preparei no parque de transição o equipamento que iria usar depois de sair do mar. Saí já com o fato parcialmente vestido, e no muro de acesso à praia sentei-me a apreciar o oceano e a desfrutar o ar da manhã que me sossegou um pouco a ansiedade própria da competição. Antes de começar a prova era visível para mim e para todos os que comigo conferenciaram que não ia ser fácil ultrapassar a rebentação para chegar à primeira boia, o mar estava indesejavelmente picado e tinha mesmo levado ao cancelamento de uma prova no dia anterior. Iniciei a corrida em direção à água sem pressa aproveitando até para dar uns ‘high-fives’ de boa sorte a outros atletas como eu. Sabe-me sempre bem entrar na água e avancei os primeiros metros sem grande dificuldade – quando cheguei à zona de maior ondulação ia um pouco desconcentrado e fui surpreendido por uma onda que me fez engolir alguma água, procurei emergir rapidamente, mas fui novamente apanhado em cheio por uma onda ainda maior que me fez engolir ainda mais água e girar sobre mim próprio debaixo do mar, tendo por uns segundos, que pareceram horas, perdido a noção de espaço e juro, por momentos tive uma sensação de estranha solidão, de que estava num mundo completamente isolado onde mais ninguém existia, como se naquele instante me coubesse decidir se continuava a viver ou se morria nesta dimensão. Nunca perdi verdadeiramente o controle, e quando finalmente vim à tona arranquei para o resto da prova e nem pensei mais no assunto até a prova estar finalizada dali a uma hora e pouco.

Pergunto-me até hoje se não seria mais livre se tivesse decidido antes, submergir.

quarta-feira, maio 10, 2017

Veritas Odium Parit

Às vezes gostava de saber odiar. Odiar mais.

Um destes dias, (eu que só sei os resultados do futebol porque mos dizem no dia seguinte ou se a minha mulher, assumidamente ferrenha lá do clube de que gosta, me informa, principalmente quando o “meu” clube perde), fui usufruir dum daqueles privilégios que fui acumulando ao longo da vida, e fui “à patrão” ver um jogo instalado no camarote de empresa, mais até para fazer companhia a um familiar que gosta destas coisas que alegram, e não só, tanto as massas.

Estava um dia frio e fui mal agasalhado de modo que só durante uma meia hora aguentei na zona exterior do camarote o visionamento do jogo – e aguentei tanto tempo porque logo abaixo do camarote estava um grupo de pessoas, das mais variadas idades, géneros e suponho classes e profissões, que logo desde muito cedo se revelou conhecedora da vida do árbitro e dos seus familiares mais próximos, e o dito árbitro devia ser uma pessoa muito má porque o ódio que este grupo de pessoas aparentemente unidas apenas pelo desejo de linchar o senhor juiz era tão grande que faria corar os santo inquisidores na altura em que queimavam pessoas.

Confesso que fiquei com uma certa inveja daquela capacidade para antipatizar tanto com alguém que só faria parte das suas vidas por hora e meia e de forma tão convicta. Pensei para comigo que no fim daquilo tudo, aquelas pessoas iriam para casa mais felizes, sossegadas e prontas para continuar a sua vida, tendo deixado bem arrumado no seu âmago o episódio que viveram naquele estádio.

Era assim que eu gostava de ser. De ser capaz de exorcizar aquilo que me corrói a alma e depois, tranquilamente continuar a minha existência que era tão simples, antes de te conhecer.

Gostava de te odiar, podia ser que assim não te amasse tanto.

domingo, abril 16, 2017

Igualmente

O dia apresentou-se falto de alegria. Estava até solarengo sem ser muito luminoso, mas já se percebia que seria o dia mais triste de toda a sua existência. Como que antecipando a sua miséria, tinha acordado quase depois de se ter deitado, seriam cinco da madrugada. Percebeu logo pelo desconforto que sentia por todo o corpo que lhe provocava uma espécie de tremura com epicentro no peito que algo lúgubre ia acontecer. Mas levantou-se mesmo assim sentindo todo o peso do mundo que tomou por cansaço dadas as poucas horas de sono.

Ainda se arrastou para o sofá buscando no seu aconchego a ilusão que era apenas um mal-estar passageiro. Esteve assim umas quase duas horas até perceber que teria mesmo que continuar inexoravelmente o resto deste dia escuro.

Correu a equipar-se e fez sessenta quilómetros usando a dor física como analgésico do rasgão que propositadamente e sem pressa lhe trucidava o peito. Depois do banho tomado almoçou com amigos e escondeu na inanidade das conversas que tiveram os pensamentos que lhe torturavam a alma.

Finalmente chegou a casa. Só. Nunca estivera tão só. Nunca a solidão se impusera tão esmagadoramente empurrando-o para a ruína da sua essência. As palavras começaram a ecoar na sua cabeça como sinos, ao mesmo tempo ensurdecedoras e mudas. Ainda se contorceu mudando uma e outra vez de posição tentando dar as costas ao mundo que não quis saber dele, mas sempre que se voltava percebia que seria desventuroso para o resto dos seus dias.

Preciso que digas que me amas. Igualmente. Igualmente? Também eu precisei e não estavas lá. Agora já não preciso. Igualmente.

sexta-feira, abril 07, 2017

Rascunho

Pois claro. Ando para aqui à procura de qualquer coisa que não sei bem o que é e no fundo no fundo a minha vida não passa de um rascunho. Não é daquelas vidas com as linhas todas bem desenhadas de traços fortes feitos a caneta que já não dá para apagar. Está cheia de riscos esborratados que foram apagados e reescritos milhares de vezes que mudam de direção como muda o vento, como se fosse um quadro ao bom estilo impressionista em que as figuras nunca chegam a ter os contornos nítidos. Mesmo as cores são simples e sem grandes composições como se a minha vida procurasse sempre os pequenos detalhes e fugisse da mixórdia de tons em que os outros obstinam em existir.

Se calhar é isso o meu encargo – conceber um enorme borrão onde os que me rodeiam possam, paradoxalmente, ver nitidamente aquilo que não devem fazer. Só fugindo às minhas pinturas poderão livrar-se de ter uma vida cheia de incertezas, de angústias, de dor e solidão, para que possam antes, calmamente, viver enfadonhamente no conforto de uma existência sem perigos do coração.

Nevertheless, all things considered, não apagava nada do quadro que ando a esboçar. Aliás sempre gostei de gatafunhos.

domingo, março 26, 2017

Really

Nem uma semana no meio do paraíso mudou aquilo que sinto por ti. Começa a ser patético. Tu em contrapartida surpreendeste pelo desprezo (ou não). Supostamente devia estar a aprender qualquer coisa com isto, mas continuo a achar que é (somente) castigo por todas as vezes em que não fui justo, ou outra coisa qualquer, com as mulheres. Só pode.

De qualquer maneira cada dia que passa, nem é que a dor diminua – às vezes com a distância parece que sim, mas depois volto a estar mais perto e blá blá blá (a sério é cansativo apesar de triste) – mas cada dia tenho mais vontade de te esquecer, ou de fazer de conta que não existes, e outras merdas pseudo-psicológicas que se devem fazer. Ah e tal, não procures quem coiso igual e mais não sei quê. Deve ser deve. Adiante.

Mas tenho conseguido ser forte (uau que bom), agora já estou mesmo na fase em que me irrita sequer pensar na ideia de pedinchar atenção, e portanto não o tenho feito, há cinco dias pelo menos que não o faço. Força aí pra mim.

Bolas, mas continua a doer. Really.