domingo, abril 16, 2017

Igualmente

O dia apresentou-se falto de alegria. Estava até solarengo sem ser muito luminoso, mas já se percebia que seria o dia mais triste de toda a sua existência. Como que antecipando a sua miséria, tinha acordado quase depois de se ter deitado, seriam cinco da madrugada. Percebeu logo pelo desconforto que sentia por todo o corpo que lhe provocava uma espécie de tremura com epicentro no peito que algo lúgubre ia acontecer. Mas levantou-se mesmo assim sentindo todo o peso do mundo que tomou por cansaço dadas as poucas horas de sono.

Ainda se arrastou para o sofá buscando no seu aconchego a ilusão que era apenas um mal-estar passageiro. Esteve assim umas quase duas horas até perceber que teria mesmo que continuar inexoravelmente o resto deste dia escuro.

Correu a equipar-se e fez sessenta quilómetros usando a dor física como analgésico do rasgão que propositadamente e sem pressa lhe trucidava o peito. Depois do banho tomado almoçou com amigos e escondeu na inanidade das conversas que tiveram os pensamentos que lhe torturavam a alma.

Finalmente chegou a casa. Só. Nunca estivera tão só. Nunca a solidão se impusera tão esmagadoramente empurrando-o para a ruína da sua essência. As palavras começaram a ecoar na sua cabeça como sinos, ao mesmo tempo ensurdecedoras e mudas. Ainda se contorceu mudando uma e outra vez de posição tentando dar as costas ao mundo que não quis saber dele, mas sempre que se voltava percebia que seria desventuroso para o resto dos seus dias.

Preciso que digas que me amas. Igualmente. Igualmente? Também eu precisei e não estavas lá. Agora já não preciso. Igualmente.

sexta-feira, abril 07, 2017

Rascunho

Pois claro. Ando para aqui à procura de qualquer coisa que não sei bem o que é e no fundo no fundo a minha vida não passa de um rascunho. Não é daquelas vidas com as linhas todas bem desenhadas de traços fortes feitos a caneta que já não dá para apagar. Está cheia de riscos esborratados que foram apagados e reescritos milhares de vezes que mudam de direção como muda o vento, como se fosse um quadro ao bom estilo impressionista em que as figuras nunca chegam a ter os contornos nítidos. Mesmo as cores são simples e sem grandes composições como se a minha vida procurasse sempre os pequenos detalhes e fugisse da mixórdia de tons em que os outros obstinam em existir.

Se calhar é isso o meu encargo – conceber um enorme borrão onde os que me rodeiam possam, paradoxalmente, ver nitidamente aquilo que não devem fazer. Só fugindo às minhas pinturas poderão livrar-se de ter uma vida cheia de incertezas, de angústias, de dor e solidão, para que possam antes, calmamente, viver enfadonhamente no conforto de uma existência sem perigos do coração.

Nevertheless, all things considered, não apagava nada do quadro que ando a esboçar. Aliás sempre gostei de gatafunhos.

domingo, março 26, 2017

Really

Nem uma semana no meio do paraíso mudou aquilo que sinto por ti. Começa a ser patético. Tu em contrapartida surpreendeste pelo desprezo (ou não). Supostamente devia estar a aprender qualquer coisa com isto, mas continuo a achar que é (somente) castigo por todas as vezes em que não fui justo, ou outra coisa qualquer, com as mulheres. Só pode.

De qualquer maneira cada dia que passa, nem é que a dor diminua – às vezes com a distância parece que sim, mas depois volto a estar mais perto e blá blá blá (a sério é cansativo apesar de triste) – mas cada dia tenho mais vontade de te esquecer, ou de fazer de conta que não existes, e outras merdas pseudo-psicológicas que se devem fazer. Ah e tal, não procures quem coiso igual e mais não sei quê. Deve ser deve. Adiante.

Mas tenho conseguido ser forte (uau que bom), agora já estou mesmo na fase em que me irrita sequer pensar na ideia de pedinchar atenção, e portanto não o tenho feito, há cinco dias pelo menos que não o faço. Força aí pra mim.

Bolas, mas continua a doer. Really.

quinta-feira, março 16, 2017

Machismo

Depois de uma rápida análise a meia dúzia de blogs femininos, e juntando isso à minha vasta sabedoria e experiência, concluí (sem nenhuma base estatisticó-científica) que os blogs do mulherio se dividem em dois grandes géneros: antes de descobrirem o amor da sua vida, e depois.

Quando isso acontece - quando descobrem o homem que as fará enfadonhas para o resto (ou não) da sua vida - das duas uma, ou acaba o blog, ou passam a falar essencialmente de filhos, comida ou maquilhagem.

segunda-feira, março 13, 2017

Reality check

Eu: Vou fazer uma tatuagem
Esposa: Desde que não seja com o nome da outra estás à vontade.

Ah Ah Ah, adoro esta mulher.

Life goes on

Penso em ti. Todos os dias. Cada paisagem, cada objecto, cada música.
Esta coisa de finalizar fez-me sentir ainda mais apaixonado.

Claro que também não tem ajudado que nos tenhamos encontrado por acaso - pareces-te-me ao mesmo tempo surpreendida e acabrunhada como se não quisesses ainda que nos tivéssemos encontrado, antes de recuperares completamente. Para mim o choque provocado pela alegria de te rever foi tão grande que só consegui dizer meia dúzia de generalidades e piadas sem qualidade. Depois paraste ao meu lado para te despedir, mas a companhia de terceiros impediu-nos de dizer fosse o que fosse um ao outro para além de mais uma piada parva da minha parte e de um sorriso comprometido da tua - meu Deus, estavas tão atraente e linda na tua fragilidade que devo ter andado horas a tremular.

Entretanto também falamos ao telefone (mais de uma hora?!?!) sobre o trabalho e de como ainda vais precisar de mais tempo para ficares boa. Era capaz de jurar que a alegria da tua voz era por causa de estares ali a conversar comigo, como se eu fosse o porto que o teu pequeno navio teima em não encontrar. Também trocamos mensagens apesar do esforço sobre-humano que fiz para não te contactar dias e dias (que pareceram séculos) seguidos. Acabaste com a minha vontade de continuar a ignorar-te com uns vamos falando” e beijinhos” a rodos.

Tenho conseguido no entanto reduzir muito a frequência com que falamos - sabe-se lá com que marcas no meu coração - e pela primeira vez na nossa longa não-relação sinto-me mais no comando do que comandado pelos sentimentos. 

A época estival continua, e depois de um fim de semana desportivo - tenho o corpo a dar de si - já a seguir vou para fora uma semana, agora de férias. Por causa disso, provavelmente só estarei contigo lá para fim do mês ou mesmo só em Abril. Sempre quero ver como vou (vamos) ficar quando estivermos novamente na companhia um do outro.

quarta-feira, março 08, 2017

Fim II

Oco. Tenho-me arrastado pelos dias como num filme a preto e branco, tudo à minha volta é em tons de cinzento e há uma neblina escura e triste a envolver cada passo que dou. 

Luto por manter as rotinas, os treinos, as leituras, a escrita, mas tudo me enfada, e quero é gritar e tratar mal o mundo que não quis saber de mim. Procuro em todo lado sinais que me digam que estou errado, pergunto aos anjos se é castigo, mas sempre que penso percebo que este é o caminho.

Escondo o sentido das lágrimas através dos filmes lamechas e dos jogos com as crianças, pergunto aos animais o que hei-de fazer e digo-lhes juras de amor como se eles soubessem a quem levar o recado.

Plasticizo o sorriso, torno a dor em gargalhada, o olhar em cristal.

Mas não consigo deixar de pensar em ti. Sempre, todos os dias, a cada segundo.

quinta-feira, março 02, 2017

Fim

Os homens também choram. Às vezes até caiem lágrimas, poucas mas suficientes para que se sinta o salgado. Nessa altura o coração estremece como se estivesse a ser tatuado com a própria dor.

Saí do país por cinco dias. Juntei-me a velhos amigos irmãos e fomos repetir uma espécie de ritual que se tornou nos últimos anos a melhor forma de fugir à prisão da vida quotidiana. Por alguns dias duas vezes por ano, não somos de ninguém, escolhemos um destino desconhecido e percorremos kilometros como se nunca fossemos voltar. O horizonte, as nuvens e a terra que pisamos torna-se na nossa casa e alternamos as horas de caminho silenciado pelo som das máquinas, com o barulho das conversas murmuradas à volta dos jantarões no cair da noite.

É uma espécie de meditação andante e leva-me invariavelmente a perspectivar a minha vida como se não fosse minha, como se fosse apenas alguém que observa do exterior a vida do personagem de um qualquer big brother.

E não gostei do que vi. Nós últimos dois anos tornei a prisão dourada onde escolhi viver numa cela solitária. Os muros afunilaram e o espaço que tenho agora é do tamanho do meu coração que era tão grande e agora nem lá cabes tu. E quanto mais te quero mais ele encolhe e já não consigo sequer respirar mais do que o necessário para não sufocar. Tenho que partir as paredes sabendo que dentro de mim vais morrer. Sou eu ou tu.